Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Cividade de Afife – Âncora, votada ao abandonado

 

 

Cividade de Afife – Âncora, votada ao abandonado

 

A Associação de Protecção e Conservação do Ambiente – APCA, no âmbito do ciclo de visitas que tem vindo a efectuar, no ano em curso, ao património natural e construído do Alto Minho está muito preocupada com o estado de abandono em que se encontra o espaço arqueológico vianense conhecido por Cividade de Afife-Âncora, localizado no sítio da “Subidade” da freguesia de Afife, concelho de Viana do Castelo. Mencionada já pelo Padre António Carvalho da Costa (1650-1715), trata-se de uma das estações arqueológicas castrejas mais importantes do Noroeste Ibérico, não só devido à área que ocupa, maioritariamente, no concelho de Viana do Castelo, mas também ao espólio encontrado nas diversas intervenções arqueológicas efectuadas, nos últimos 130 anos, por figuras cimeiras da arqueologia nacional e europeia, como por exemplo, entre outros, Martins Sarmento, Cristopher Hawkes, Abel Viana, Sousa Oliveira e Armando Silva. Mais recentemente, foi com os trabalhos do reputado arqueólogo Prof. Armando Coelho Ferreira da Silva que a Cividade de Afife-Âncora passou a ser conhecida mundialmente, após um ciclo de intervenções arqueológicas, na década de oitenta do século passado, com o apoio do município caminhense, em que foram postas em prática metodologias arqueológicas inovadoras e de grande rigor científico no estudo da cultura castreja. Destas escavações resultou um valioso espólio que se encontra patente ao público no exemplar Museu Arqueológico que a Câmara Municipal de Caminha instalou num belo edifício, em pleno Centro Histórico da urbe caminhense.

A designação Cividade de Âncora, geradora de grande polémica em Afife, passou a partir de 1980 a ser Cividade de Afife-Âncora. A primeira designação remontava a 1879 e ficou a dever-se a Martins Sarmento ter visitado esta estação arqueológica a partir da freguesia de Âncora, do concelho de Caminha, dado encontrar-se alojado em Vila Praia de Âncora e desconhecer os limites administrativos das freguesias de Afife e Âncora e simultaneamente dos concelhos de Viana do Castelo e Caminha. Salienta-se, contudo que as diversas intervenções efectuadas pelos ilustres arqueólogos atrás mencionados tiveram sempre lugar no espaço territorial da freguesia de Afife, isto é, no concelho de Viana do Castelo.

A Cividade de Afife-Âncora é um importante povoado da Idade do Ferro com indícios de romanização, localizado a cerca de 1250 m da actual linha de costa, com uma altitude máxima de 187 m, sobre o contraforte noroeste da Serra de Santa Luzia, na fronteira administrativa de Afife (concelho de Viana do Castelo) e Âncora (concelho de Caminha), que para além de integrar o conjunto dos grandes povoados castrejos que dominavam o litoral da região, tem, ainda, grande importância no Castrejo do Noroeste Ibérico. As dimensões e localização, assim como a organização urbana (três linhas de muralhas, casas circulares e ovais, condutas de escoamento de águas, fontes de mergulho, fornos, pequenos sepulcros em forma de cista, etc.), da Cividade de Afife-Âncora, permitem enquadrá-la no grupo dos grandes povoados castrejos proto-urbanos, da fase mais recente da Idade do Ferro. Embora as suas origens remontem aos séculos VI-VII a. C., a sua maior ocupação e importância terá ocorrido por volta dos séculos II-I a. C., prolongando-se pela fase inicial do período romano. A Cividade de Afife-Âncora conjuntamente com outros povoados mais pequenos, controlava a linha de costa entre Santo Izidoro (Moledo) e Montedor (Carreço), os vales e estuários do Âncora e de Afife e o acesso ao estanho e ouro

(Moledo) e Montedor (Carreço), os vales e estuários do Âncora e de Afife e o acesso ao estanho e ourodas serras de Santa Luzia e de Arga. A Cividade de Afife-Âncora é um dos povoados mais emblemáticos da Cultura Castreja sendo daqui, para além de outro espólio importante, os famosos lintel e ombreira decorados com o extraordinário cordoame que Martins Sarmento levou para o museu de Guimarães que ostenta o seu nome.

Referenciada e aconselhada a sua visita em diversos roteiros turísticos de promoção do concelho e da região, deparamos com uma estação arqueológica emblemática da cultura castreja do Noroeste Ibérico, completamente votada ao abandono, tomada por vegetação infestante, actos de vandalismo e recentemente, irracionalmente, desvalorizada com a implantação de uma antena de comunicações no seu principal trilho de acesso. Trata-se de uma imagem da região verdadeiramente impensável e incompreensível, que no mínimo deveria levar à demissão e responsabilização de quem tem a incumbência de tratar do Património Cultural, se porventura essas pessoas tivessem vergonha e brio enquanto profissionais e representantes da defesa e salvaguarda dos bens públicos. É deveras lamentável, em pleno século XXI, que a dezena de quilómetros que separa esta estação arqueológica das desproporcionadas mordomias dos responsáveis por esta situação, profundamente, lesivas do interesse público, sejam a justificação para o estado em que se encontra este bem patrimonial vianense. Este comportamento sistemático de desleixo e que corre mundo através dos inúmeros turistas que visitam o espaço em causa, remetidos pelos roteiros turísticos e museus onde se encontra o espólio desta estação arqueológica, é apontado como um dos aspectos mais negativos da imagem da região. Salienta-se que a Cividade de Afife – Âncora encontra-se dotada de um óptima estrada de acesso, construída há cerca de 18 anos, inserida num projecto de valorização do património cultural vianense, que tinha por finalidade entre outros aspectos a constituição de um pólo de atracção turística, no domínio da cultura castreja na região. Passado todo este tempo e no tão apregoado desenvolvimento sustentável e vida saudável depara-se, infelizmente, com este cenário condenável, imagem fidedigna da atenção dispensada e da forma como se trata o Património Cultural na tão propalada urbe dita saudável e amiga do ambiente. Como sabiamente diz o povo, temos o que escolhemos, todavia a situação da Cividade de Afife-Âncora não deixa de ser demonstrativa de que algo está mal e necessita de uma rápida alteração, porque mais do mesmo significará, certamente, a manutenção destas situações lesivas de um património colectivo, cuja preservação urge, senão queremos assistir à continuidade do definhamento da nossa identidade cultural.

Estamos esperançados que os responsáveis por estas situações não continuarão a castigar os afifenses e os cidadãos em geral, com este tipo de práticas, porque tal atitude será mais uma facada no desenvolvimento da região e os cidadãos já não toleram estes comportamentos reincidentes. Seja como for e considerando a importância, desta estação arqueológica, no contexto nacional e europeu, não será já demasiado tempo, os cerca de 18 anos decorridos, com vista à concretização do projecto de musealização da cividade de Afife-Âncora e a criação de um núcleo museológico em Afife, onde seja possível observar o diverso espólio das estações arqueológicas afifenses?

 

Afife, 24 de Agosto de 2009                                                           


A Direcção da APCA

 

Telemóvel 919842173  -  Email : apca.ambiente@sapo.pt       / http://afifeambiente.blogs.sapo.pt/

publicado por afifeambiente às 21:15
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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Estado da Mamôa da Ereira, envergonha Viana do Castelo

 

 

 

Estado da Mamôa da Ereira, envergonha Viana do Castelo

 

A Associação de Protecção e Conservação do Ambiente – APCA, perante a situação de absoluto esquecimento a que foi votada a Mamôa da Ereira, localizada no lugar do Medorro da freguesia de Afife, concelho de Viana do Castelo, vem por este meio denunciar publicamente o estado calamitoso em que se encontra este importante monumento megalítico do Noroeste Peninsular e apelar no sentido de que seja efectuada uma rápida intervenção, por quem de direito e com responsabilidades em razão do lugar e da matéria.

Numa visita ao local, conforme nos é aconselhado nos roteiros turísticos de promoção do concelho e da região, deparamos com um monumento, completamente votado ao abandono, sendo a vegetação infestante, que o cobre, a sua "única protecção". Trata-se de um cartão de visita da região verdadeiramente lastimável e incompreensível, que no mínimo deveria de envergonhar quem tem a incumbência de tratar do Património Cultural, sendo deveras caricato, em pleno século XXI, que uns escassos 12 Km que separam este monumento megalítico das lautas mordomias dos responsáveis por esta situação, profundamente, lesiva do interesse público, sejam a justificação para os inúmeros pés de infestantes, silvas, mato e lixo que cobrem o monumento. Esta atitude de desleixo e que corre mundo através dos turistas que visitam o espaço em causa, remetidos pelos roteiros turísticos, esconde um dos mais importantes monumentos megalíticos funerários de Portugal - A Mamoa da Eireira de Afife - cuja localização a escassos 20 metros da E.N.13, deveria constituir um pólo de atracção turística da região e do tão apregoado desenvolvimento sustentável, mas que infelizmente, no momento presente, é a imagem fidedigna da atenção dispensada e da forma como se trata o Património Cultural numa tão propalada dita urbe saudável. Enfim, como diz o povo, temos o que escolhemos, mas que não deixa de ser demonstrativo de que algo está mal e necessita de uma correcção urgente.

Relembra-se que este monumento foi objecto de estudo aprofundado entre 1986-1989, por uma equipa liderada pelo Prof. Eduardo Lopes da Silva, que definiu este monumento nos seguintes termos: “A mamôa da Ereira (Afife) apresenta uma arquitectura dolménica que viria a configurar-se como uma estrutura com corredor duplamente indiferenciado, assemelhando-se às áleas cobertas francesas. Na verdade, este monumento apresenta todos os esteios com a mesma altura, com acentuada inclinação para o interior. Trata-se de uma estrutura sem paralelos conhecidos, até hoje, no nosso País”. Salienta-se, ainda, que na mamôa da Ereira surgiram lado a lado gravuras e pinturas, salientando-se um esteio gravado e pintado, além de um fragmento de laje só com pinturas, em bom estado de conservação. Sem embargo do grande interesse dos motivos referidos, destaque particular vai para os 6 esteios decorados do dólmen de Afife, um dos quais corresponde a um grande e raro motivo antropomórfico, estilizado. A importância deste monumento é, ainda, reforçada com um conjunto apreciável de pontas de seta encontradas “in situ” no decurso das escavações, assim como outro material lítico e cerâmico com grande relevância arqueológica.

Há quem defenda, embora esta associação não acredite em tal tese, que esta situação e outras é um castigo que está a ser aplicado aos afifenses por motivos diversos e que visa destruir a cultura ancestral deste povo, através da eliminação, por permissão consciente ou por omissão ou negligência da sua matriz cultural, como rampa de lançamento, num futuro próximo, da urbanização do espaço onde se localiza a mamôa da Ereira. Seja como for e considerando a importância europeia, deste monumento funerário, da cultura megalítica, não será já demasiado tempo, os cerca de 20 anos decorridos, desde a sua escavação, até ao momento presente, em que ano após ano é prometida a recuperação e musealização do mesmo?

 

Afife,10 de Agosto de 2009                                                          


A Direcção da APCA

 

publicado por afifeambiente às 23:47
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